segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010



[Everton Cinelli]

Não havia voz naquela boca ressequida
Nem uma bela música pra um dia de verão
Não existiam muitos motivos nem necessidades
Pra que aqueles serenos olhos perdidos olhassem pro alto
Ela ia dirigindo ao luar, nas entranhas da noite-mãe
Com o ar cantando fora dos vidros
Era sua única amiga, era sua única irmã
Amargava as dores de forma solitária e fria
Abraçava o fruto de seu ventre maternal

Esse seu mundo em retalhos
Prostituído por ela mesma
... Foi se vendendo pra si
Atravessando os longos anos
Acreditou no amor
Acreditou na beleza da dor
Parecia que era mártir de sua própria redenção
Mas apenas criança, apenas sombra, morria

Morria sozinha, petrificada em seu silêncio eternal
Era fruto de suas próprias descrenças na vida
Intimamente amante da perda, amante condenada à escravidão
Sub-julgada, psicologicamente violentada
Moeda corrente de suas trapaças interiores
Vinho amargo da mesa onde servem seus sonhos infantis
Freguês de um tempo desgostoso
Amiga fiel dos dias de ilusões, dos dias perdidos

Vai adoecendo devagar, degustando essa vida escura
Desde suas células
Tudo tão insensato, imperdoavelmente nu
Sem iluminação, erudição ou elucidação
Sacrifício iníquo, são esses seus dias
Pó de estrelas, fagulhas do porvir
Ainda inocente, peca!
Ainda eterno, morre!

Voe, voe livre... O céu é teu!

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