segunda-feira, 11 de abril de 2011

Atra-hasis


Muitas vezes nos perguntamos como e por que estamos vivos, aqui? Como surgiu a humanidade? Deus ou deuses nos criaram? Somos produtos da evolução da vida no planeta?

Essas perguntas são inerentes ao ser humano, desde os primórdios. Todas as civilizações e suas religiões tentaram explicar a existência da vida humana. Muitas dessas explicações são feitas através dos mitos, os mitos da criação, os mitos do nascimento dos deuses, e em seguida, dos homens.

Os antigos sumérios, povo que habitou a Mesopotâmia, sob a forma de um poema mitológico, composta em acádico tentou dar essas respostas. O poema é chamado de Atra-hasis, o qual é o nome do herói humano central da segunda parte do poema. Atra-hasis significa a suprema inteligência ou o super-sábio (tradução do assiriólogo J. Bottero).

O exemplar desse poema menos danificado possui 1.245 linhas, em três tabuinhas e são do tempo do rei Ammi-saduca (1646 – 1626) da Babilônia, posterior a Hamurábi (1792 – 1750). No entanto, foi composto bem antes, pois o deus babilônico Marduk e o deus sol Shamash, grande juiz dos céus e da terra, mencionados no código de Hamurábi, não aparecem em Atra-hasis.

A seguir serão apresentadas as linhas do início do poema à criação da humanidade. Eis o tema: antes da existência da humanidade os deuses habitavam a terra e trabalhavam para suprir suas próprias necessidades, porém não suportaram o jugo. Passaram o trabalho para os deuses menores, chamados Igigu, mas, estes também se rebelaram.

Tabuinha 1

Quando os deuses tinham o papel do homem,

carregavam o cesto;

o cesto dos deuses era grande

e a tarefa, pesada.

5 Os grandes Anunnaku, o grupo dos sete,

queriam encarregar os Igigu da tarefa.

Anu, seu pai, o rei,

seu conselheiro, o destemido Enlil,

seu arauto Ninurta,

10 seu comissário Ennugi

seguraram o copo,

tiraram a sorte, repartiram os deuses.

Anu subiu ao céu;

o... tomou a terra

15 (as barreiras), as profundezas do mar

foram entregues a Enki, o príncipe.

[Depois que Anu] subiu ao céu,

[e os deuses, aqueles] do Apsu desceram;

[os Anunnaku], os do céu,

20 impuseram a [tarefa] aos Igigu.

[Os deuses] puseram-se a cavar [cursos de água],

[abriram canais], providência vital para a região.

25 [Os deuses escavaram] o rio Tigre

[e o Eufrates] em seguida.

(7 linhas danificadas, sem tradução possível)

[Eles contaram os anos] de servidão;

35 [...] O grande cerrado de juncos.

Eles contaram os anos de servidão;

[os Igigu, durante 25]00 anos,

suportaram, noite e dia um excessivo e [pesado] trabalho.

Eles se queixam e acusam,

40 murmuram contra a escavação:

“Vamos procurar nosso [vigilante (?)] o arauto,

que ele nos descarregue de nossa pesada tarefa;

[o Senhor], o conselheiro dos deuses, o destemido,

vinde, retiremo-lo de seu trono;

45 [Enlil], o conselheiro dos deuses, o destemido,

vinde, retiremo-lo de seu trono!”

(Lacuna de algumas linhas, em seguida as 4 últimas linhas são a fala de um condutor, ao que parece, e depois:

Agora, convocai para o combate,

para a batalha; vamos juntar-nos à multidão.

Os deuses ouviram suas palavras;

atiraram ao fogo suas ferramentas,

65 – 67 puseram fogo em suas enxadas e incendiaram seus cestos.

Uniram-se uns aos outros, e foram

até a porta do santuário do destemido Enlil.

70 Já caíra a noite, era o meio da vigília;

a casa está cercada, o deus o ignora;

já caíra a noite, era o meio da vigília,

o Ekur está cercado, Enlil não o sabe!

Kalkal (o) percebeu e mandou [fechar (?)];

75 verificou o ferrolho, examinou [a porta (?)];

Kalkal despertou [Nuska];

ouviram os gritos dos [Igigu].

Muska despertou [seu senhor],

fê-[lo] levantar do leito:

80 “Meu Senhor, [tua] casa está cercada,

a multidão chegou [à tua porta];

Enlil, tua casa está cercada,

a multidão chegou à tua porta!”

Enlil mandou trazer armas à sua morada.

85 Enlil abriu a boca

e dirigiu-se ao ministro Nuska:

“Nuska, tranca tua porta,

toma as armas, fica diante de mim”.

Nuska trancou sua porta,

90 tomou suas armas, colocou-se diante de Enlil.

Nuska abriu a boca

e dirigiu-se ao destemido Enlil:

“Meu Senhor, teus traços são (como) o tamarindo;

são teus próprios filhos, que temes?

95 Enlil, teus traços são (como) o tamarindo;

são teus próprios filhos, que temes?

Faze com que desça Anu,

Traga Enki diante de ti”.

Ele mandou que Anu descesse,

100 trouxeram Anki à sua presença.

Anu estava sentado, o rei dos céus;

o rei de Apsu, Enki, prestou atenção;

os grande Anunnaku estavam sentados,

Enlil levantou-se e a audiência realizou-se.

105 Enlil abriu a boca

e dirigiu-se aos grandes deuses:

“Foi contra mim que eles se lavantaram?

Eu conduzirei o combate [...]

Deuses! que vi eu?

110 O conflito chegou à minha porta!”

Anu abriu a boca

e dirigiu-se ao destemido Enlil:

“O assunto para o qual os Igigu

rodearam tua morada...”

(Texto em mal estado, mas percebe-se que Nuska foi encarregado de discutir com os rebeldes, os quais lhes deram a seguinte mensagem:)

“(Ó vós), conjunto de todos os deuses,

160 nós [queremos...] o combate.

Pusemos [...] nas escavações

[um trabalho] excessivo quase nos matou;

[pesada] a nossa tarefa, imensa nossa aflição.

(Ó vós), conjunto de todos os deuses,

165 nossa boca nos levou a queixar-nos a Enlil”.

Enlil ouviu (este) discurso

enquanto escorriam suas lágrimas;

Enlil interrompeu seu discurso

e dirigiu-se ao destemido Anu;

170 “Quero subir com[tigo] aos céus;

toma (de mim) a função e recebe tua retribuição.

Os Anunnaku instalaram-se diante de ti;

chama um deus, que o ponham no túmulo!

As linhas 171-188 estão totalmente corrompidas na tabuinha da época antiga, por isso as linhas 171-173 acima, são de uma tabuinha de 10 séculos mais tarde. Já as linhas 182-188, que seguem abaixo, são de um fragmento da mesma época da tabuinha antiga, e em muitas coisas não coincidem. No entanto, apesar da lacuna, percebe-se que depois de Enlil tentar abdicar, Ea se esforça em admitir a legitimidade das queixas dos Igigu, e propõe uma solução: a criação dos homens, para que esses trabalhem no lugar dos Igigu.

Ea [abriu] a boca

e dirigiu-se aos deuses [seus irmãos]:

“De que nós os acusaríamos?

185 Pesado é seu trabalho, [grande o seu tormento].

Cada dia a terra [...]

o sinal de alarme [...]

Há [...]

“Ela lá está, Belet-ili, a matriz;

190 que a matriz venha a parir, que ela modele

e que o homem carregue o cesto do deus!”

Eles chamaram a deusa, interrogaram

a parteira dos deuses, a prudente Mami:

“Serás tu a matriz formadora da humanidade;

195 forme o lullu, que ele suporte o jugo;

que ele suporte o jugo que é a obra de Enlil;

que o homem carregue o cesto do deus!”

Nintu abriu a boca

e dirigiu-se aos grandes deuses:

200 “Não é só a mim que compete operar;

é com Enki que a obra está por se fazer;

é ele que tudo purifica;

dê-me ele a argila e eu, eu operarei”.

Enki abriu a boca

205 e dirigiu-se aos grandes deuses:

“No primeiro dia do mês, no sete e no quinze,

Eu quero organizar uma purificação, um banho.

Que se abata um determinado deus

e que os deuses se purifiquem pela imersão.

210 À sua carne e ao seu sangue

que Nintu misture e argila,

que parte do deus e parte do homem sejam misturadas

juntos na argila!

Vamos, ouçamos o tambor para sempre!

215 Que da carne do deus haja um espírito;

que dê um sinal de si aos vivos

e para impedir o esquecimento, que haja um espírito!”

“Sim”, responderam na assembleia

os grandes Anunnaku

220 que se incumbem dos destinos.

No primeiro dia do mês, no sete e no quinze

Ele organizou uma purificação, um banho.

224 Abateram em sua assembléia.

223 Wê, um deus que possuía razão;

225 À sua carne e ao seu sangue

Nintu misturou a argila;

[...] para sempre!

Da carne do deus houve um espírito;

deu sinal de si aos vivos

230 e, para impedir o esquecimento, surgiu um espírito;

após misturar esta argila,

ela chamou os Anunna, os grandes deuses.

Os Igigu, os grandes deuses,

cuspiram na argila.

235 Mami abriu a boca

e dirigiu-se aos grandes deuses:

“Vós me ordenastes uma obra

e eu a cumpri;

vós abatestes um deus com sua razão;

240 retirei vosso pesado trabalho,

impus ao homem vosso cesto.

Presenteastes com gritos a humanidade;

eu abri a argola de ferro (?), estabeleci a liberdade!”

Quando ouviram o que ela lhes dizia,

245 correram e beijaram seus pés:

“Antes, nós te chamávamos Mami;

247-8 agora, seja teu nome: Senhora de todos os deuses!”

As linhas que seguem a 250ª estão totalmente apagadas, porém diversas palavras do final do texto coincidem com o início de um fragmento mais recente, e se presume ser mais ou menos conforme o texto antigo, da seguinte maneira:

Eles entraram na casa do destino,

250 o príncipe Ea, a prudente Mama.

As matrizes, uma vez reunidas,

pisoteiam a argila diante dela.

Ela profere ininterruptamente a encantação

que Ea, sentado diante dela, a faz repetir.

255 Quando ela terminou sua encantação,

255 bis cuspiu em sua argila,

desprendeu catorze torrões à direita,

sete torrões à esquerda;

colocou sete tijolos entre eles.

(Uma nova lacuna, recorre-se então à outro texto, mais recente, que coincide com o anterior dando sequência ao relato).

Naquele tempo, a criança levava 100 anos para não mais se sujar;

uma vez crescida passava (ainda) 100 anos

sem que lhe fosse confiado um trabalho;

ela era pequena, era tola; sua mãe (dela) tomava conta;

seu berço era colocado no curral.

É essa idéia, segundo Jacobsen que o desenvolvimento dos patriarcas bíblicos somente geravam filhos em idade aparentemente avançada. É demasiadamente importante perceber que esses relatos foram em muitos aspectos influencias para os relatos dos demais povos que vieram após os sumérios, como, por exemplo, os babilônios, e o restante dos povos semitas em geral.

Fonte: VV.AA. A Criação e o Dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo. Trad. M. Cecília de M. Duprat. São Paulo: Paulinas, 1990. Autor (a): Mariana Garcia Coelho Publicado por: Mariana www.templodeapolo.net

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